"A Covid-19, os governos da União Europeia e as multinacionais farmacêuticas"
- NOVACULTURA.info
- 3 de jun. de 2021
- 17 min de leitura
Atualizado: 6 de jun. de 2021

O desenvolvimento da pandemia COVID-19 caracterizou-se, do ponto de vista midiático, por uma estratégia destinada a gerar confusão, medo e impotência. O procedimento é um bombardeamento esmagador de notícias carentes do mais elementar rigor científico – usam-se, por exemplo, números absolutos e não taxas (relação entre o número de caso e a dimensão da população) para valorizar a incidência, de forma que qualquer comparação é absurda – e por uma ocultação sistemática da informação que coloca alguma dúvida sobre a versão oficial, inclusive aquela proveniente das fontes mais respeitadas. Este trabalho pretende contribuir para analisar um fenômeno muito complexo e atravessado por poderosíssimos interesses, que evidencia a submissão estrita das decisões políticas aos interesses do grande capital – em detrimento da teórica prioridade de salvaguardar a vida e a saúde das suas populações. A gestão da compra de vacinas, tanto por parte da Comissão Europeia como do governo espanhol, é um exemplo paradigmático da submissão dos objetivos da saúde ao negócio privado.
1. Desaparecimento das farmacêuticas públicas e financiamento pelo Estado das multinacionais Nos países capitalistas, a produção e distribuição de medicamentos concentrou-se em grandes monopólios, ao mesmo tempo que desapareceram as empresas farmacêuticas públicas. Tudo isso apesar de que, historicamente, a OMS – e a lógica sanitária mais elementar – recomendava a criação em cada país de indústrias públicas produtoras dos medicamentos essenciais, dentre os quais as vacinas e os hemoderivados ocupam os primeiros lugares. A atual pandemia evidenciou a realidade: nenhum país da UE produziu até a data qualquer vacina em laboratórios públicos.[1] Em Espanha, de cada 100 euros da despesa pública em saúde, 29,6 são investidos em medicamentos[2], cerca de 30 mil milhões de euros por ano. As multinacionais farmacêuticas controlam o financiamento de fármacos e a prescrição. Muitas vezes fazem-no mediante suborno direto dos médicos e, em geral, influindo decisivamente nos planos de estudo de medicina, manejando influências para incluir no Registro novos fármacos que não o são[3], financiando todos os congressos de especialidades médicas, pondo ao seu serviço a investigação pública e inclusive patrocinando associações de pessoas enfermas. 2. O negócio do século: financiamento público antecipado e isenção de responsabilidade Uma das consequências da pandemia é o colossal negócio para as multinacionais farmacêuticas, calculado na UE, por enquanto, em 50 mil milhões de euros decorrentes da compra pelos Estados de milhões de doses de vacinas[4]. Gigantes empresariais como a GKS, Pfizer ou AstraZeneca, que como veremos mais adiante encabeçam as listas de sanções por práticas criminais e que exibem anualmente margens de lucros que superam muitas vezes as da banca, nem sequer tiveram que arriscar seus investimentos. Com dinheiro público dos estados da UE, entre eles do espanhol, adjudicaram-se antecipadamente, em agosto de 2020, 2 bilhões de euros para vender milhões de doses de vacina[5]. E fizeram-no antes que se houvesse demonstrado a validade, eficácia e segurança dos seus produtos. Todas as grandes farmacêuticas conseguiram, dos governos da UE, que fossem eles a pagar as indenizações por possíveis efeitos secundários da vacina. Além disso, estão tentando conseguir serem totalmente eximidas de responsabilidade civil pelas sequelas produzidas pelos seus medicamentos[6]. 3. Os interesses econômicos que controlam decisões políticas Em agosto de 2010, um dia depois de declarar finalizada a epidemia de gripe A, a OMS tornou público que os membros do seu Comitê de Peritos haviam sido subornados pelas multinacionais farmacêuticas fabricantes de vacinas e de antivirais[7], como Tamiflú e Releza (La Roche y GlaxoSmithkline, respectivamente). A OMS foi acusada de haver gerado uma situação de alarme injustificado que levou muitos países à compra maciça de vacinas e medicamentos como os citados. Durante todo esse tempo manteve em segredo os nomes do seu comitê de peritos com o pretexto de “evitar pressões”. Desde a década dos 90, o financiamento por parte dos Estados membros da OMS tem diminuído à medida que aumentavam os fundos privados. Grandes fortunas como Bill Gates e multinacionais farmacêuticas contribuem com 90% do orçamento da OMS. O gráfico a seguir fala por si só:

O magnata norte-americano é acionista de uma dezena de farmacêuticas, incluindo a Pfizer e a AstraZeneca. A Fundación AstraZeneca em Espanha tem na sua folha de pagamentos como assessores diretores de hospitais e instituições públicas de investigação[8]. A evidência dos vínculos das grandes farmacêuticas com o poder econômico e político é esmagadora:
O principal proprietário da Pfizer é o fundo de investimentos Black Rock, o maior do mundo em gestão de ativos: 5,1 milhões de milhões de dólares em 2016, segundo a empresa. A Black Rock tem 9 mil milhões de dólares investidos na banca espanhola e 12 mil milhões no IBEX[9]. Além disso, em associação com a Naturgy (antes Gas Natural – Fenosa), a Black Rock participa em 49% do gasoduto Argélia-Espanha, Medgaz[10].
Em 11 de Dezembro de 2020, o presidente dos EUA, Donald Trump, deu um ultimato a Stephen Hahn, diretor da FDA, para que autorizasse nesse mesmo dia a vacina ou buscasse outro trabalho[11]. A ameaça surtiu efeito, a vacina da Pfizer recebeu a autorização de emergência no dia seguinte e o gigante Walmart anunciou sua disposição para distribuí-la em 5000 estabelecimentos dos EUA.
A EMA, Agência Europeia de Medicamentos, também facilitou a autorização de emergência da Pfizer num tempo recorde e, a 27 de dezembro, começou a ser inoculada nos países da UE. A EMA também recebe 90% dos seus fundos das grandes empresas farmacêuticas. Sua nova diretora é vassala fiel da indústria farmacêutica. Tal como publica a OMS na sua biografia, procede da indústria irlandesa do medicamento e trabalhou como Gerente de Assuntos Científicos e de Regulação em Bruxelas para a EFPIA (Associação da Indústria Farmacêutica Europeia)[12], lobby do setor farmacêutico junto à UE. Foi eleita como diretora da EMA em plena pandemia, em julho de 2020.
Em Espanha, a penetração das multinacionais farmacêuticas nas instâncias políticas foi uma constante cuja descrição ultrapassa os limites deste trabalho[13]. Vale a pena recordar que desde o primeiro governo do PSOE, em 1982, todos os ministros e ministras da saúde foram-no com o plácet da indústria farmacêutica. O primeiro a não contar com o seu visto bom foi Ciriaco de Vicente, um homem honrado, e isto levou a que Felipe González designasse outro candidato, Ernest Lluch.
O registro por parte das farmacêuticas de altos cargos do Ministério da Saúde e dos Conselhos das Comunidades Autônomas, inclusive o ex-ministro Bernat Soria, foi uma constante.[14] Em plena pandemia, o ministro da Saúde do PSOE participou de um importante evento com a multinacional farmacêutica Roche – grande protagonista do escândalo da Gripe A e do Tamiflú – patrocinado pelo jornal El País para conceber a “saúde do futuro”, com base no esquema de “colaboração público-privada”, preconizado pela farmacêutica[15]. A tentativa de eliminar do Registro os medicamentos ineficazes e inseguros – a Espanha tem quase cinco vezes mais medicamentos registrados do que outros países da UE – implicou a viagem a Madrid de Henry Kissinger, conselheiro da companhia norte-americana Sharp and Dome (MSD), em visita privada para zelar pelos interesses da sua empresa”[16]. Conseguiu seu objetivo: o assunto resolveu-se com a demissão do Diretor Geral de Farmácia, Félix Lobo. Esses inconvenientes resolveram-se com a criação da Agência Espanhola de Medicamentos, que inicialmente foi um organismo autônomo e depois uma agência estatal encarregada de fato das decisões políticas nesse âmbito. Conseguiu-se assim situar a política do medicamento fora das estruturas ministeriais e fazê-la muito mais controlável pelas multinacionais farmacêuticas. Joan Ramón Laporte[17], máxima autoridade científica em matéria de medicamento no Estado espanhol, afirmou recentemente: “as Agências de Medicamentos foram uma invenção do capitalismo neoliberal dos anos 90”.[18] 4. A trapaça do COVAX O COVAX, apresentado no Fórum Mundial de Davos em 2017 como uma colaboração mundial para acelerar o desenvolvimento de tratamentos, provas e vacinas, é uma instituição fundada pela Global Alliance for Vaccines and Inmunizations (GAVI)[19] e pela Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI)[20], ambas produzidas, concebidas e financiadas pela Fundação Bill e Melinda Gates. Apresenta-se como uma instituição “público-privada” que, como todas as que usam este eufemismo tão em voga, utiliza financiamento público, dos governos, para benefício privado. Atua como banco comercial para a compra de vacinas a multinacionais farmacêuticas. Utiliza o disfarce público e benéfico de servir para garantir o acesso equitativo às vacinas, quando na realidade sua finalidade é moldar a indústria mundial de fabricação de vacinas e o mercado de consumo de vacinas nos países pobres.[21] A criação do COVAX obedece a três objetivos fundamentais: proteger as patentes, evitar ao máximo a distribuição de vacinas procedentes de instituições públicas de países como a China, Rússia e Cuba, e impedir que as vacinas sejam produzidas diretamente por países que têm capacidade para isso, como a África do Sul, a Índia e o Brasil.[22] 5. O que sabemos e, sobretudo, o que não sabemos sobre as vacinas que se estão a utilizar na UE A autorização de emergência recebida por todas as vacinas contra o COVID-19 não é uma aprovação como a que recebe qualquer outro medicamento, utiliza-se sim quando os fármacos em questão não mostraram a documentação exigida para isso. A decisão excepcional de permitir o seu uso adota-se em função de uma grave situação de alarme que justificaria correr os riscos inerentes ao cumprimento dos protocolos e controles exigidos antes de permitir o uso de qualquer medicamento. Passados os momentos de choque, de confusão e até de pânico, em boa medida induzidos pelos meios de comunicação, cabe destacar que a taxa de letalidade média, no momento mais álgido da epidemia (Maio de 2020) na Espanha era muito baixa: 0,8%[23] (uma das mais baixas da Europa) concentrada em pessoas mais idosas, 95% com mais de 65 anos. A comparação desta letalidade com a taxa de letalidade da difteria, que em menores de 5 anos era de 20%, ajuda a relativizar adequadamente a situação e colocar a pergunta se sim, em tais circunstâncias, é razoável prescindir dos protocolos de segurança e ignorar os requerimentos estabelecidos, precisamente quando se trata de administrar fármacos novos a centenas de milhões de pessoas. No momento em que se escreve este artigo, não há notícia de que nenhuma das empresas fabricantes das vacinas que se estão a usar na UE esteja a seguir os protocolos exigidos para a autorização definitiva, apesar dos muitos milhões de pessoas que já foram inoculadas. O direito de patente, e, portanto, a ocultação de informação sobre a composição exata do fármaco, impossibilitam uma avaliação contrastada tanto da eficácia como dos riscos das novas vacinas. O obscurantismo nos acordos da UE com as multinacionais farmacêuticas [24] para a compra de vacinas, que havia financiado previamente, foi denunciado com insistência no Parlamento Europeu. Nem sequer os eurodeputados puderam aceder à documentação completa dos contratos nos quais investiram mais de 2000 milhões de dinheiro público. A informação apresentada pelo Departamento de Saúde do Reino Unido aos profissionais sanitários, procedente de dados da própria empresa acerca da vacina da Pfizer-BioNtech, ilustra acerca da ausência de verificação da mesma, apesar de que se está a proceder a vacinação de milhões de pessoas.[25] Do mencionado relatório britânico, a Coordenadora Antiprivatização da Saúde (CAS) destaca o seguinte[26]:
1. A eficácia desta vacina é muito pequena se se comparar com os níveis de proteção de vacinas anteriores[27]. A vacina da Pfizer preveniria só um caso leve-moderado por cada 119 pessoas vacinadas; ou seja, os outros 118 ver-se-iam submetidos aos efeitos secundários sem obter nenhum benefício.
2. A proteção conferida refere-se somente a casos leves ou moderados. Não há dados acerca da eficiência na prevenção de casos graves (hospitalizações, ingresso em UCI) ou mortalidade. Afirmar que a vacina previne mortes carece totalmente de fundamento. E mais: os ensaios não estão concebidos para avaliar a sua eficácia para evitar casos graves ou mortais.[28]
3. Não foram completados os dados sobre toxicidade reprodutiva em animais.
4. Não se conhecem os efeitos em menores de 18 anos, nem em maiores de 65 anos, apesar de se haver informado que a vacinação no Estado espanhol começará por este último grupo de idade.
5. Exclui-se a vacinação na gravidez e na lactação. Também em pessoas com tratamento com imunossupressores. A contraindicação em pessoas anti-coaguladas está sujeita a controvérsia neste momento.
6. Desconhece-se o período de imunidade conferido pela vacina.
7. Não há dados sobre se se produzem danos na fertilidade.
8. Não há dados acerca da capacidade de transmissão da enfermidade das pessoas vacinadas. Não há dado algum que permita concluir que a vacinação maciça terminará com a pandemia e, portanto, se se pode prescindir das medidas de prevenção.
6- Farmacovigilância: o lobo a guardar o rebanho Diante da vacinação maciça de pessoas sãs e pessoas com diversas patologias e tratamentos, a lógica mais elementar, a prudência mais básica e os princípios deontológicos mais essenciais, exigiriam reforçar ao máximo todos os mecanismos de farmacovigilância e de gestão de riscos. Nada disso está a acontecer em caráter geral e sistemático. No momento da inoculação, em muitos lugares a única coisa que se pede à pessoa é que assine o consentimento informado e se lhe pergunta sem tem alergias. Não se está a seguir em caráter geral e obrigatório o protocolo de farmacovigilância estabelecido. Nem lhes é aberta uma história clínica, nem lhes é perguntado de enfermidades prévias ou atuais, nem se lhes pede informação sobre medicamentos que possa estar a tomar. Apesar de na própria documentação da empresa Pfizer constar a contraindicação da vacina em casos de gravidez e lactação, não se pergunta sistematicamente às mulheres em idade fértil se estão grávidas ou em lactação, ou se tomam anticoncepcionais. Tudo isso apesar de os efeitos adversos graves em mulheres jovens quase quadruplicarem os dos homens.[29] Tão pouco se alerta àqueles que recebem a vacina acerca de que sintomas graves poderão aparecer e o que fazer nesse caso. Ou seja, não há uma recolha sistemática de dados, não há um protocolo nem um registro geral. É por isso que, tal como assinala Joan Ramón Laporte, quando a EMA começa a falar da existência de trombose em localizações atípicas que poderiam ser produzidas pela vacina da AstraZeneca, cai em contradições com os seus próprios dados e, sobretudo, não mostra a tabela de recolha de dados obrigatória em todo sistema de farmacovigilância. Laporte sugere que a causa poderia ser a enorme infra dotação de meios dos Centros de farmacovigilância em consequência dos cortes dos últimos anos, mas, sobretudo, e estreitamente vinculada aos cortes, a normativa da UE sobre farmacovigilância[30] que confere uma função muito destacada neste campo precisamente à indústria farmacêutica. Segundo a normativa em vigor, as fontes de informação são de dois tipos: uma recebe as notificações espontâneas feitas pelo pessoal médico – com um subregistro importante e que não permite quantificar com exatidão – e o segundo são os sistemas de gestão de riscos, cuja responsabilidade recai na própria indústria do medicamento. Pela sua especial transcendência, reproduzo a seguir as palavras de Joan Ramón Laporte em uma entrevista recente: “os sistemas de gestão de riscos (são) uma série de estudos que se fazem com os primeiros consumidores de um novo medicamento para ver o que se passa e se funcionam tal como no ensaio clínico. Estes planos são encarregados às próprias farmacêuticas – e isto é pôr o lobo a guardar o rebanho! Porque disto não se fala. Com os sinais de trombos, a AstraZeneca não trouxe nenhum dado, tudo o que se sabe é pela notificação espontânea. E mais, se você vai à web da EMA e examina o documento oficial de autorização de todas as vacinas contra o Covid, ali fica claro que o plano de acompanhamento de segurança das vacinas está nas mãos de cada companhia, mas não há nenhuma lista dos estudos que fará cada uma delas, nem protocolos: é algo secreto e opaco”.[31] Em continuação, ilustra a situação com um exemplo: “Estes estudos implicam um enorme movimento de dinheiro. Um relatório alemão contava que em cinco anos as farmacêuticas pagaram mais de 200 milhões de euros a médicos para que participassem nestes estudos, sem que produzissem nem um só resultado que fosse ao sistema alemão de farmacovigilância. Utilizam a farmacovilância para promover a prescrição do medicamento! Pagam a cada médico participante por cada participante ao que lhe seja prescrito! Isso a EMA sabe perfeitamente e nada faz a respeito”.
7. Práticas criminosas e mafiosas A revista JAMA (Journal of the American Medical Association) publicou em Novembro de 2020 um artigo intitulado “Sanções econômicas impostas às grandes empresas farmacêuticas por atividades ilegais” [32] . O estudo refere-se só aos EUA e recolhe as sanções impostas por este país entre 2003 e 2016 a 22 multinacionais farmacêuticas que produzem medicamentos para o tratamento, teste ou vacinas para a Covid 10. A GlaxoSmithKline (GSK) ocupa o primeiro lugar com multas no valor de 9.775 milhões de dólares, a Johnson & Johnson o terceiro, com 2.668 milhões e a AstraZeneca o décimo primeiro com 1.172. As multas costumam ser de 10% dos lucros obtidos pelo fato sancionado. O pagamento de multas é considerado como uma despesa a mais na comercialização de um fármaco. Os delitos de que foram acusadas são: promoção ilegal (recomendar fármacos para indicações não aprovadas), interpretação falseada dos resultados das investigações, ocultação de dados, danos e subornos com comissões a pessoal médico e políticos para obter contratos, entre outros. Todas elas obtiveram contratos milionários com a Comissão Europeia, inclusive a GSK que, associada com a francesa Sanofi, conseguiu vender à Comissão Europeia 300 milhões de doses da sua vacina que supostamente estará disponível em meados deste ano. A publicação de relatórios e resultados de investigações farmacológicas nas mais prestigiosas revistas científicas é financiada pela indústria farmacêutica, que as utiliza como instrumento de propaganda, tal como foi reconhecido por diretores dessas publicações.[33] 8. O contrato do século. A UE negocia a compra à Pfizer-BioNtech de 1,8 bilhão de doses Em 14 de abril último, a presidente da Comissão Europeia, Úrsula von der Leyen, confirmou que a UE estava a negociar com a Pfizer-BioNtech a compra de 1,8 bilhão de doses adicionais da sua vacina, no momento que se anunciava o aumento de preço de cada dose para 23 dólares. No total, a UE pagará a fabulosa cifra de 41,4 bilhões de euros de dinheiro público por um número de doses que multiplica por quatro a população atual da UE- 27,447 milhões de pessoas. Este desequilíbrio justifica-se pela chegada de novas “ondas” que exigirão três ou quatro novas doses de vacina até 2023. O cenário montado com os incumprimentos e os efeitos adversos da AstraZeneca serviu para justificar que a vacina da Pfizer-BioNtech se converta n “coluna vertebral da vacinação europeia”. A presidente da Comissão Europeia aproveitou para louvar “o compromisso, a fiabilidade e a reatividade da Pfizer-BioNTech”. Estas louvações não são gratuitas, pretendem sim encobrir que a multinacional farmacêutica ocupa o infame segundo lugar em condenações por delitos de promoção de medicamentos para indicações não aprovadas, ocultação de resultados adversos e, sobretudo, no caso que nos ocupa, subornos a funcionários para a obtenção de contratos.[34] É muito interessante aceder ao comparecimento público do Promotor Geral associado dos EUA, Thomas Perrelli, anunciando a histórica condenação da multinacional farmacêutica. A Pfizer-BioNtech aceitou a sua culpabilidade pela promoção de fármacos para usos não aprovados e pagou 2,3 milhões de dólares.[35] Alguém poderia assegurar que o fabuloso contrato obtido pela Pfizer-BioNtech com a UE é alheio a estas práticas tão habituais e documentadas da multinacional farmacêutica? Ainda que a “estratégia de choque” esteja a tornar possível que o mais elementar seja esquecido, é preciso recordar, sobretudo diante de um contrato destas dimensões, com prazos temporais tão longos e que prevê inoculações repetidas a milhões de pessoas, que se trata de um fármaco não aprovado. Apesar de os meses transcorrerem e de se estar a efetuar vacinações maciças, este fato transcendental não é mencionado, nem se estabelecem prazos para que os estudos necessários para sua aprovação definitiva sejam culminados. Conclusões 1- O objetivo prioritário da obtenção crescente de lucros, inerente à empresa privada, é estritamente oposto ao da saúde pública: melhorar o estado de saúde de toda a população. O capital, para desenvolver-se, necessita minar e debilitar o sistema público: quanto mais e melhor saúde pública, menos espaço de negócio privado e vice-versa. Exatamente igual aos parasitas em relação ao organismo cujos recursos utilizam para viver e cuja devastação é inerente ao seu desenvolvimento. 2- Em um cenário de profunda crise geral, de hegemonia capitalista na luta de classes e quando o espaço para as reformas há muito que se esgotou, constata-se que, apesar de a pandemia ter revelado as dramáticas insuficiências da saúde pública, os recursos destinaram-se exclusivamente à empresa privada. As medidas gerais de saúde pública, tanto sociais como sanitárias, têm sido ignoradas. 3- Os múltiplos antecedentes de corrupção tanto de peritos da OMS e das diferentes Agências de Medicamentos como de políticos, por parte das grandes empresas farmacêuticas, juntamente com os lucros fabulosos que se estão a gerar, permitem suspeitar que foi construído um sinistro cenário “informativo” de medo na população, para tentar justificar investimentos multimilionários com dinheiro público em vacinas produzidas pelas grandes multinacionais farmacêuticas. 4- Ao serviço deste negócio descomunal deve situar-se o fato de se terem obtido autorizações de emergência, sem assegurar níveis de segurança e eficácia exigidos a este tipo de medicamentos usados maciçamente em pessoas saudáveis. Além disso, no processo de vacinação não há notícias da existência de protocolos de farmacovigilância, com caráter geral e sistemático, que permitam conhecer com rigor os efeitos adversos que as novas vacinas estão a produzir. 5- A avaliação da segurança e da eficácia de um medicamento tem os seus ritmos e as suas formas. Não os respeitar implica riscos, sobretudo quando vai ser administrado a milhões de pessoas sãs. O princípio de Hipócrates “primum non nocere” que deve guiar a prática médica sucumbiu frente aos negócios multimilionários. O paradoxo trágico é que precisamente as dúvidas das próprias multinacionais farmacêuticas acerca da segurança dos seus fármacos é que levou ao escandaloso acordo destas empresas com a UE. São os governos respectivos, com dinheiro público, que pagarão as indenizações pelos efeitos adversos das vacinas. 6- O controle das decisões políticas por parte das multinacionais farmacêuticas revela-se nitidamente quando os governos esgrimem o “alarme” e a “emergência” como razões para adotar decisões que ultrapassam os limites da prudência. Ao mesmo tempo, as descobertas feitas por organismos públicos nos próprios países da UE são ignoradas ou são sabotados acordos com países como a Rússia ou Cuba, com uma longa e comprovada tradição das suas instituições públicas na biotecnologia e na descoberta de vacinas. 7- Num mundo em que as evidências científicas são subordinadas à lógica esmagadora do lucro, a produção de medicamentos por instituições públicas é a única garantia de poder retirar um bem tão precioso à ação de máfias internacionais com uma enorme capacidade de corrupção, chantagem e até de crime como as descritas por John le Carré no seu romance “O jardineiro fiel”. Há uma incompatibilidade essencial entre negócio privado e saúde pública. Nestes meses, e o mais difícil ainda está para vir, a depredação de vidas humanas que o capitalismo produz tornou-se inegável. A aposta pela vida, para colocar o ser humano como uma prioridade social, exige a sua destruição.
por Ángeles Maestro
Tradução do Resistir.info
NOTAS
[1] Investigadores da Universidade de Helsinkia têm há meses uma vacina contra o Covid, que é usada mediante spray nasal impedindo a entrada e replicação do vírus, pode ser conservada à temperatura ambiente e está livre de patentes. A equipe necessita 50 milhões de euros para executar a Fase III, montante ridículo frente ao que se está a investir em vacinas, mas que não foi conseguido até à data. kaosenlared.net/,,, Algo semelhante ocorre na Espanha com a vacina, também nasal, sobre a qual trabalha uma equipe do CSIC, com cientistas com contratos precários e investigadores aposentados que trabalham gratuitamente. www.eldiario.es/... [2] catalunyaplural.cat/... [3] O número de medicamentos autorizados e comercializados em Espanha, 13.335, é mais de dez vezes superior ao de países como a Noruega e mais do triplo do que em França. Este fato não implica melhores recursos para os tratamentos e sim alto grau de controle do Registro pelas empresas. As palavras de Joan Ramón Laporte, diretor da Agencia Catalana del Medicamento são concludentes: A Espanha financia todos os fármacos que a indústria lhe propõe. www.elperiodico.com/... [4] A utilização da propaganda pelos grandes executivos da Pfizer ou Moderna sobre supostos êxitos das suas vacinas como meio para conseguir aumentos das cotações em bolsa para, a seguir, venderem suas ações dá ideia das gigantescas expectativas de negócio e da falta de escrúpulos com que se move este negócio. [5] A Espanha incorporou-se ao Acordo de Compra Antecipada de Vacinas da UE www.boe.es/diario_boe/txt.php?id=BOE-A-2020-9132 [6] www.eldiario.es/... [7] elpais.com/diario/2010/06/05/sociedad/1275688803_850215.html [8] Sua Diretora é a ex-secretária de Estado de Investigación com [o governo de] Mariano Rajoy. Também são membros, o Diretor da fundação pública de Medicina Genómica do Serviço Galego de Saúde, del Centro Nacional de Genotipado do ISCIII e membro da Agencia Europeia de Medicamentos, a Subdiretora Geral de Bioética da Comunidade de Madrid, um membro do comitê de peritos em política do medicamento da OMS e a Diretora de ensaios clínicos do Hospital de Granada. No Comitê científico de la fundação AstraZeneca está o Diretor do Instituto Respiratorio do H. Clínic de Barcelona, o Chefe de Serviço de Oncologia do H. 12 de octubre, o Diretor do Instituto de Investigação de Barcelona e o Chefe de Serviço de Cardiologia do Hospital Ramón y Cajal. hojasdebate.es/sanidad/que-intereses-estan-detras-de-las-politicas-sanitarias/ [9] A BlackRock é o primeiro acionista dos dois grandes bancos espanhóis, Santander (5,38%) e BBVA (5,917), Caixabanc (3,003%), Banc de Sabadell (4,994%) e Bankinter (3,694%) Também possui participações em grandes empresas multinacionais espanholas, como por exemplo: Telefónica (3,883%), Repsol (3,25%), ACS (3,2%), OHL, Gamesa (9%), IAG (6,2%), Euskaltel (3,59%), Técnicas Reunidas (3,055%). es.wikipedia.org/wiki/BlackRock#Espa%C3%B1a [10] www.eldiario.es/... [11] www.milenio.com/ [12] www.who.int/blueprint/about/emer-cook/en/ [13] www.elconfidencial.com/... [14] Os dados podem ser consultados aqui: www.dsalud.com/... [15] www.elsaltodiario.com/... [16] elpais.com/diario/1986/07/18/sociedad/522021605_850215.html [17] Joan Ramón Laporte é catedrático de Farmacología da Universidade de Barcelona e Diretor do Instituto Catalán de Farmacología, organismo colaborador da OMS. [18] ctxt.es/... [19] es.wikipedia.org/wiki/GAVI [20] en.wikipedia.org/wiki/Coalition_for_Epidemic_Preparedness_Innovations [21] COVAX, um órgão mundial de múltiplas partes interessadas que pode acarretar riscos sanitários e políticos para os países em desenvolvimento e o multilateralismo – Amigos de la Tierra Internacional (foei.org) [22] COVAX: la trampa (alainet.org) [23] www.mscbs.gob.es/... pág. 25 [24] www.eldiario.es/... [25] A informação científica apresentada pelo Governo britânico pode ser consultada aqui: assets.publishing.service.gov.uk/... [26] www.casmadrid.org/... [27] A vacina contra a poliomielite confere um nível de proteção entre 99 e 100% até 25 anos depois da quarta dose. www.vacunas.org/eficacia-de-la-vacuna-poliomielitis/ [28] www.bmj.com/content/371/bmj.m4037 [29] dap.ema.europa.eu/... [30] www.boe.es/doue/2010/348/L00074-00099.pdf [31] ctxt.es/... [32] jamanetwork.com/... [33] Gotzsche, C. Peter (2014), Medicamentos que matan y crimen organizado . O autor, médico, biólogo e químico, que trabalhou para a indústria farmacêutica reflete neste trabalho demolidor a engrenagem criminosa das multinacionais farmacêuticas. [34] Ibid. nota 41. [35] Pfizer Medical Fraud Settlement | C-SPAN.org (c-span.org)
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