"A guerra é um denominador comum"
- NOVACULTURA.info
- 19 de jan. de 2018
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O ambiente geográfico conhecido como Oriente Médio, onde 60% das reservas mundiais de petróleo estão concentradas, vem mudando no ponto de vista da mídia, a partir do domínio geopolítico dos Estados Unidos na área. Agora, não é incomum saber sobre o conflito no Oriente Médio quando se trata da guerra na Síria ou no Iraque, ou quando inclui nações do norte africano ou da Ásia. A explicação — na minha opinião — deve ser buscada no denominador comum dessa geopolítica: o papel dos Estados Unidos. A última ação de guerra e desestabilização de Washington — o anúncio de Donald Trump para mover a embaixada dos EUA para Jerusalém — faz parte de uma longa história, a partir do momento em que as vítimas judias perseguidas e vítimas dos horrores da Segunda Guerra Mundial, foram acomodadas em terras palestinas. A expansão judaica foi o estopim — hoje muito presente com milhares e milhares de assentamentos — que exacerbou o conflito entre palestinos e israelenses. A partir desse primeiro momento, os Estados Unidos apoiaram e blindaram militarmente Israel. O anúncio desrespeitoso de Trump foi uma das maiores bofetadas desferida à comunidade internacional neste ano de 2017 que acabou. Quando a ONU condenou a decisão, o presidente ameaçou de cortar a ajuda que dão aos países que votaram contra ele e já está em andamento a mesma. Inicialmente, já o fez com as próprias Nações Unidas, pois já suspendeu boa parte da contribuição. SÍRIA DESTRUÍDA; IRAQUE MUTILADO A nação síria, nos últimos seis anos, sofreu a pior guerra, enquanto o Iraque sofre com a mutilação causada pela invasão e ocupação dos EUA. Ali se envolveram milhares de mercenários estrangeiros, principalmente da Europa, com terroristas da região financiados pelo exterior, grupos constituídos por facções étnicas e, sobretudo, o denominador comum: os Estados Unidos. Desde 2014, uma chamada coalizão internacional liderada por Washington bombardeia o território sírio — sem a permissão das autoridades do país — sob o pretexto de derrotar os terroristas do Estado islâmico. No entanto, essas ações eram direcionadas, na maioria dos casos, a posições do exército sírio e instalações civis, como casas, escolas, atividades familiares, igrejas e outros. Foi assim até que o governo de Bashar al Assad pediu ajuda à Rússia, para colaborar militarmente e para liquidar os terroristas. A aviação russa começou a se envolver, a partir de setembro de 2015 e, neste último mês de 2017, já havia conseguido, juntamente com as forças locais do exército sírio, libertar quase todo o país árabe da presença de terroristas armados. Naquela guerra sangrenta contra o terrorismo e aqueles que o apoiam, a Síria teve que investir 67% do Produto Interno Bruto, de acordo com a agência Efe. Pelo menos 346.612 pessoas morreram na Síria desde o início do conflito, em 2011, e pouco mais de 5,9 milhões de sírios tiveram que emigrar, para viver como refugiados em outros países. O Iraque também viveu um ano de guerra contra o terrorismo do Estado islâmico nascido em seu território. Hoje, a destruição provocada pelos extremistas aumenta a devastação nunca reconstruída, deixada pelos bombardeios dos EUA e da OTAN. Este ano conclui para os iraquianos entre a destruição e a ingovernabilidade do país, com o ingrediente de ações violentas causadas por facções enfrentadas historicamente. Mais de um milhão de iraquianos foram mortos ou feridos e a riqueza do patrimônio cultural foi destruída. LÍBIA, EXISTE OU NÃO EXISTE? Muitas fontes o catalogam como um "Estado falhado". Outros ignoram a própria existência desse país norte-africano. Para muitos meios de comunicação, falar em Líbia hoje é apenas identificá-la com o ponto de partida de milhares de refugiados africanos que atravessam esse território para se lançar no Mediterrâneo e tentar chegar à Europa. Milhares são os que morrem na tentativa. Daquele país, o mais desenvolvido em África há uma década, hoje os indicadores do de-senvolvimento humano são verdadeiramente dramáticos. Um comunicado de imprensa indica que a Líbia, após sete longos anos de guerra, perdeu praticamente toda sua infraestrutura, a falta de controle das autoridades forçou todos a tentar sua própria maneira de sobrevivência. A população não tem nenhuma possibilidade de abastecimento, a ponto de ser forçada a quebrar o asfalto das ruas que sobreviveram à guerra, na busca de tubulações de água antigas, embora o país tenha o terceiro maior aquífero em nível mundial. O negócio do contrabando de seres humanos inundou a nação e a maneira de evitar que as pessoas famintas e as que estão fugindo das tribos e outras guerras possam chegar aos países europeus, provocou a condenação da comunidade internacional porque são prejudiciais à integridade física e moral de milhares de seres humanos presos hoje naquele país em busca de uma saída ao seu status. Vale lembrar que a Líbia, bombardeada pela OTAN quando os Estados Unidos resolveram derrotar o presidente Muammar al Kadaffi, depois dessa terrível chacina, aplicou uma limpeza racial e étnica sem precedentes. Os 55% dos líbios foram forçados a fugir do país para estados vizinhos. De acordo com dados da ONU, 65% dos hospitais estão fechados, enquanto o dinar líbio desabou e a produção de petróleo passou de 1,9 milhão de barris por dia para 250 mil barris. AFEGANISTÃO MAIS POBRE Se quisermos avaliar a situação no Afeganistão, embora em algumas linhas, deve-se dizer que esta nação asiática é hoje muito mais pobre do que quando foi invadida, há 16 anos, pelas tropas dos EUA. É mais instável, ingovernável e violenta. Nem os grupos terroristas foram destruídos, nem o país foi reconstruído. Não passa uma semana sem um ataque, principalmente contra as tropas dos EUA, que ainda estão lá ou contra os militares afegãos treinados por elas. O presidente dos EUA quer reverter a situação enviando mais 6.000 soldados. No cenário afegão, Washington teve desdobrados, nos 16 anos de guerra, milhares de soldados e oficiais, aparelhos de guerra modernos e todos os tipos de serviços de inteligência. Mas pouco ou nada foi investido para aliviar a situação do povo afegão empobrecido. Nessa guerra, o Pentágono gastou US$ 828 bilhões, enquanto houve mais de 2.000 soldados dos EUA mortos e 20 mil feridos. IÊMEN: BOMBAS E FOME O Iêmen é uma das nações mais pobres de todo o Oriente Médio e é vítima de rivalidades entre grupos étnicos. Além disso, a Arábia Saudita esteve envolvida no conflito e os ataques aéreos contra esse país são comuns. Afetado por uma guerra real entre facções rivais e a ação militar estrangeira, termina em 2017 com 18 milhões de iemenitas que precisam de ajuda humanitária urgente. Há dois milhões de pessoas deslocadas, 190.392 fugiram para países vizinhos e 280.395 procuraram segurança em suas próprias terras. Segundo a BBC, o Iêmen corre o risco de perder o seu futuro, com 500.000 crianças gravemente desnutridas. Em dois anos de guerra, lares, hospitais e escolas foram destruídos pelos bombardeios. De acordo com informações das Nações Unidas, mais de 10 mil pessoas morreram e pelo menos 40 mil foram feridas até 2017. Em um balanço inacabado do final do ano, há indicadores adversos, como o que cerca de 40,2 milhões de pessoas passam fome no Oriente Médio e no norte da África, como resultado dos conflitos que afetam a região, alertou a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), de acordo com a agência Efe. Tanto na Síria quanto no Iêmen, entre 70% e 80% da população depende da ajuda humanitária, uma porcentagem em torno de 30% no Iraque e 20% na Líbia. Este é o resultado tangível de uma geopolítica cujo denominador comum é a guerra e seu principal promotor: os Estados Unidos.
por Elson Concepción Pérez, no Granma